Precisamos falar sobre a psicodelia brasileira - Por Ricardo Alexandre

Precisamos falar sobre a psicodelia brasileira, Ricardo Alexandre - R7 Entretenimento (Setembro 2015)

É curioso como as tendências se organizam, se reorganizam, se alastram e se contraem quase que como organismos vivos. Em relação ao pop brasileiro, por exemplo, a febre em torno do tropicalismo, que começou com os Mutantes em meados dos anos 1990, seguiu com a música Black para as pistas (com DJs como o londrino Cliffy) e, curiosamente, chegou em um escaninho dos mais improváveis: o rock psicodélico nacional. Primeiro, foi a coletânea americana, Brazilian Guitar Fuzz Bananas, organizada pela loja novaiorquina Tropicalia in Furs em 2010. O disco foi tão cultuado que rendeu um documentário com lançamento previsto para 2016, que ganhou engajamento até do ator Elijah Wood. Mas um gerente de projetos de Campinas, interior de São Paulo, de 36 anos, resolveu ser um “malucos dispostos a encarar essa dor de cabeça” de reconstruir a história em seu próprio país, do jeito mais artesanal e caprichoso possível.

Fabricio Bizu estudava design e, inicialmente, se interessou pela pequena, mas valente escola de artistas gráficos que ilustraram pôsteres para os raríssimos shows e festivais brasileiros do período – o equivalente local ao que o coletivo Family Dog e Rick Griffin faziam no exterior. Foi a partir do pôster do natimorto festival Primavera (desenhado por Alain Voss, produzido por Antonio Peticov) e da ideia de reimprimir uma tiragem baixíssima daquela arte que Bizu chegou ao grupo baiano Leif’s. Surgidos a partir da banda de mini-guarda Os Minos, Os Leif’s eram uma banda de acid-rock em ascensão no pop brasileiro no finalzinho dos anos 1960. Depois de acompanhar Gil e Caetano no lendário show Barra 69 e os Novos Baianos no álbum É Ferro na Boneca, o quarteto veio a São Paulo gravar pelo selo Beverly seu único compacto, com as músicas “Fobus in Totum” e “Nem sei de mim”. Bizu conta que poucas dezenas de exemplares foram prensados em 1970 pelo selo Beverly e distribuídos para radialistas e gente de imprensa – com os créditos para “Os da Bahia”, por sugestão da gravadora. Dali a pouco os irmãos Pepeu e Jorginho deixariam a banda para acompanhar oficialmente Os Novos Baianos e os Leif’s afundaram definitivamente no terreno das lendas.

Bizu fundou o selo PsicoBR e, por três longos anos, encarou a missão de amarrar as muitas pontas soltas para lançar, em vinil de 7 polegadas, o mítico single dos Leif’s, com um cuidadoso encarte que inclui diversos folhetos e pôsteres e fac-similares e o pôster do festival Primavera – que contaria com presença do grupo baiano, entre Mutantes, Gal Costa e vários outros. O kit, lançado no final de 2014, custa 100 reais e restam menos de uma centena de exemplares em estoque.

A psicodelia defendida no nome do selo é abrangente o suficiente para ir do rock mais hendrixiano até o tropicalismo passando por marcos do underground brasileiro que não necessariamente tinham a ver com drogas lisérgicas. O segundo trabalho de restauração de Bizu foi o pôster do festival Banana Progressyva, que rolou em São Paulo em 1975 com bandas como Som Nosso de Cada Dia, Vímana, Veludo, Barca do Sol, A Bolha, Erasmo Carlos e outros. O campineiro conta que localizou o artista original, Billy Gibbons (homônimo do guitarrista do ZZ Top) que pediu para retocar digitalmente a arte original, num legítimo caso even better than the real thing, como cantava o U2.

Os dois projetos deram origem a um terceiro, mais insuspeito: o lançamento de uma banda de hard-rock campineira chamada Face Ácida que em 1994 lançaria seu primeiro álbum, cruza de Black Crowes com Kyuss (com Made in Brazil, vá lá), mas que acabou se dissolvendo antes que o disco fosse mixado. Bizu convidou o também campineiro Luis Granja Venturin, discípulo de Eddie Kramer. 

Ricardo Alexandre